O conceito de Triple Helix, ou Tríplice Hélice da Inovação, foi criado na década de 1990 pelos pesquisadores Etzkowitz e Leydesdorff, a partir de trabalhos anteriores de Lowe, Sábato e Mackenzi, bem como de observações realizadas, principalmente, no México e nos EUA.
O conceito traz à tona uma importante mudança de paradigma na produção de inovação, promovendo e incentivando a integração entre três importantes atores do ecossistema: poder público, academia e empresas privadas.
Entenda o que é a Tríplice Hélice da Inovação, como ela se desenvolve e sua ligação com o fomento à inovação na atualidade. Siga a leitura.
O que é Tríplice Hélice da Inovação?
Tríplice Hélice da Inovação é um modelo de inovação centrado na colaboração de três elementos inter-relacionados: as empresas, universidades e o governo. Juntos, eles interagem e promovem o desenvolvimento da inovação e do empreendedorismo.
Na literatura, a definição do termo corresponde a “um paradigma de produção de inovação que deixa de ser centrado apenas na indústria e passa a se apoiar em três atores: as empresas, as universidades e o governo.”
Nesse cenário, todas as partes possuem um papel importante.
As universidades são centro da produção de inovação em si, tanto pela formação de profissionais de alto nível quanto pela pesquisa e desenvolvimento de tecnologias, pois congregam pessoas e conhecimentos especializados.
Já as empresas puxam esse processo, a partir de suas demandas práticas; e o governo é o facilitador, seja por meio de programas de incentivo à pesquisa, seja reduzindo as burocracias necessárias para desenvolver e implementar as inovações.
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As diferentes fases da Tríplice Hélice da Inovação
A Tríplice Hélice da Inovação passa por um processo de evolução até chegar ao modelo de inter-relação que apresentamos aqui. Esse processo é constituído por três fases.
Na primeira fase, empresas, universidades e governo são definidos institucionalmente e não se sobrepõem.
As empresas visam produzir; as universidades visam gerar e transmitir conhecimento; o Governo visa administrar o Estado e, dentro dessa atividade, regular as empresas e universidades. Eles não trabalham juntos para atingir seus objetivos.
Na segunda fase, passamos a ver relações bilaterais entre esses elementos. Por exemplo, empresas e universidades podem formar parcerias, porque as empresas precisam de profissionais qualificados e as universidades precisam de investimentos.
Finalmente, na terceira fase, constrói-se uma relação plena entre os três elementos, com uma diluição das fronteiras entre eles. A figura abaixo representa essa fase.
É importante notar que, enquanto a relação entre empresas, universidades e governo torna-se quase simbiótica do ponto de vista de produção da inovação, cada uma possui seus interesses que estão sendo atendidos por meio dessa colaboração “trilateral”:
- As universidades, com o suporte das empresas e do governo, podem se destacar como centros de excelência;
- As empresas, com a inovação produzida pelas universidades e os benefícios oferecidos pelo governo, podem aumentar sua competitividade no mercado;
- O governo, ao fortalecer universidades e empresas, gera impacto positivo em duas áreas essenciais de sua atuação: a educação e a economia do país.
Assim, a Tríplice Hélice da Inovação não é meramente um paradigma que beneficia a inovação nas empresas, mas um arranjo sistêmico que gera consequências positivas bem mais amplas.
Os pilares da universidade empreendedora
Na terceira fase da Tríplice Hélice da Inovação, a universidade precisa evoluir para uma universidade empreendedora.
Isso significa que ela não é somente um espaço de ensino, mas uma organização consciente da lógica de mercado e ativa dentro dela. Para isso, são necessários quatro pilares.
1. Liderança acadêmica
A liderança acadêmica, quer seja o reitor, os coordenadores de cursos ou outras, devem ter uma visão estratégica para a universidade, especificamente, para como ela vai se posicionar em relação ao governo e às empresas.
Além disso, deve ser capaz de implementar essa visão. Se a liderança acadêmica for omissa nessa questão, não há como se inserir na Tríplice Hélice.
2. Autonomia
Vimos que a Tríplice Hélice da Inovação aproxima e, em certos aspectos, quase realiza uma fusão entre a universidade, as empresas e o governo. Por outro lado, isso não significa que a universidade deve perder sua autonomia.
Pelo contrário: ela deve continuar sendo administrativamente, financeiramente e patrimonialmente autônoma, para que suas decisões – inclusive decisões sobre a melhor maneira de conduzir pesquisas e desenvolvimento – não sejam controladas por agentes externos.
3. Estrutura
A universidade empreendedora prioriza se organizar para incubar tecnologias, criar e transferir patentes e comercializar projetos. Ela vai além do laboratório, dando uma destinação à inovação que é produzida.
4. Cultura
Finalmente, vale a pena lembrar que a universidade difere da empresa porque, na realidade, ela não pode exigir da comunidade acadêmica o desenvolvimento de inovação. A função básica da universidade é o ensino.
Portanto, se não houver interesse dos docentes e discentes na pesquisa, essa área não avança.
Assim, para construir uma universidade inserida na Tríplice Hélice da Inovação, é preciso fomentar uma cultura empreendedora na administração, nos professores e nos alunos.
Cenário atual
O cenário atual é de inevitabilidade do fortalecimento da Tríplice Hélice da Inovação.
Embora, no Brasil, ainda exista um descompasso entre os três elementos, segurando o nosso nível de efetiva inovação, eles tendem a se aproximar e harmonizar cada vez mais.
Isso pede a atenção de todos os profissionais, desde os executivos nas empresas, passando pelos funcionários públicos e políticos, até os administradores e professores de instituições de ensino superior.
É necessário que todos passem a considerar a dinâmica da Tríplice Hélice na tomada de decisões estratégicas. Já não basta mais olhar somente para a própria organização.
Nesse sentido, ganha especial destaque o papel do Governo na criação, aprovação e implementação de leis que incentivem e regulem a relação dos três elementos da Hélice, porém, sem engessá-la.
O Governo já tem se mostrado ciente dos dilemas que cercam a questão da inovação e está buscando maneiras de organizar essa prática, o que ficou claro com a promulgação do Marco Regulatório da Inovação.
Certamente veremos mais leis sobre o tema, ou que o abordam tangencialmente, sendo produzidas no futuro próximo.
Outro ponto importante é o tempo. Universidades, empresas e Governo têm tempos diferentes para tomar ações e produzir resultados.
Para que a relação entre eles sejam possíveis, é preciso encontrar uma forma de sincronizar esses diferentes tempos, dentre os quais o das empresas é o mais acelerado.
Conclusão
Por fim, isso levanta ainda mais uma questão: com o fortalecimento da Tríplice Hélice da Inovação, as empresas ficam sujeitas às consequências do que acontece no âmbito de outras esferas. Notadamente, da política.
Portanto, é necessário que os executivos estejam atentos aos debates, para entender como a passagem de bastão dentro do Governo pode afetar os caminhos da inovação.
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Um comentário
Texto muito claro e bem explicativo. Gostei muito, parabéns!